Líderes do Bom Senso rebatem Kalil por críticas ao movimento: ‘Não respeito esse senhor’, diz zagueiro Paulo André

Convidado do programa Bola da vez, do canal ESPN, no último dia 3 de outubro, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, ex-presidente do Atlético, gerou polêmica ao criticar duramente o Bom Senso FC, movimento criado por grandes jogadores do país em 2013 para discutir melhorias para o futebol brasileiro. Na entrevista, o ex-dirigente tratou os idealizadores do projeto como “bando de aposentados, sem mercado, fazendo gracinha” e disse que a intenção do Bom Senso era fazer o atleta “jogar menos”.
”Jogador, quando é bom e eu quero, não quero saber o que ele faz. Um bando de aposentados, sem mercado, fazendo gracinha para meia dúzia que caíram na onde deles. É isso que é o Bom Senso. Tanto que deu no que deu. O calendário, eles querem jogar menos. Acho justíssimo! Ganhar menos também é justo. (É uma discussão para ter, diz o jornalista). Para ter, mas essa discussão não entrou. Eu nunca ouvi falar de jogador reduzir salário dele. Nunca ouvi. Já ouvi falar sempre que tem que jogar menos, só ouvi falar em calendário, não ouvi falar em dinheiro”, disse Kalil durante o programado naquela data.
Nesse domingo, durante o programa Resenha ESPN, Alex, ex-Cruzeiro e já aposentado, e Paulo André, zagueiro do Atlético-PR, dois dos principais líderes do Bom Senso FC, extinto em 2016, explicaram as razões que fizeram o movimento perder força no Brasil. Além disso, comentaram as declarações de Alexandre Kalil à emissora no começo do mês.
Paulo André foi o mais incisivo e rebateu durante as declarações do ex-presidente do Atlético, hoje à frente da prefeitura de BH. “Cara, eu não sei se vale a pena responder. Eu não respeito esse senhor, eu acho ele…A discussão que ele levanta é extremamente superficial, ou seja, é populista, ele quer é fazer barulho, quer chamar a atenção. São frases idiotas e não vale a pena responder. É muito mais profunda a discussão do futebol brasileiro. Ninguém fala apenas de calendário. Há todo um sistema que tem que ser reformulado, a toda uma ideia, um conceito que precisa ser criado. A gente ainda…apesar dos resultados da Seleção Brasileira hoje, o futebol brasileiro rasteja, a gente vive uma crise existencial para tentar reencontrar o nosso futebol. E o Kalil, desculpa, é o prefeito de BH, coitada da população de BH, que tem que aguentar esse cara gerindo uma cidade”.

Bom Senso/divulgação
Alex, ídolo do Cruzeiro, também lamentou o posicionamento de Alexandre Kalil. “O mais louco nessa história é o seguinte. Ele trata o Bom Senso falando do calendário e aí ele cita de jogar menos, que era pedido nosso. A gente nunca pediu para jogar menos, muito pelo contrário. Nós sempre pedimos para que o time do Atlético Mineiro, que era o time dele no caso, tivesse tempo razoável para treinar e jogar no domingo. O time do Atlético Mineiro dele seria melhor. A gente nunca citou, por exemplo, em acabar com os Estaduais, porque a gente fez estudos enormes e tem um milhão de famílias que dependem dos Estaduais”.
”A gente vê o Kalil, por exemplo, prefeito de uma cidade importante do Brasil, de uma capital importante como é Belo Horizonte, foi presidente vencedor no Atlético Mineiro, tratar como se fosse algo superficial. A mim, não levo em consideração. Mas ao mesmo tempo me deixa chateado porque a gente vê que o cara não enxerga a um metro de distância tudo aquilo que está acontecendo”, acrescentou Alex sobre as causas defendidas pelo Bom Senso, como calendário do futebol nacional, férias dos atletas, período adequado de pré-temporada, fair-play financeiro (regulação de dívidas dos clubes) e participação de atletas em conselhos técnicos das entidades que regem o futebol, como federações e CBF.
Fim do movimento

Segundo Alex, o movimento Bom Senso FC perdeu força e acabou extinto em 2016 por falta de representatividade política da classe na Câmara Federal para mudar o quadro atual, em que decisões ficam exclusivamente a cargo de clubes, das federações e da CBF. “A Dilma Rousseff era presidente do país e nos recebeu. O chefe da Casa Civil nos recebeu. Só que quem tem a caneta, quem pode mudar algo, são essas pessoas (deputados). A gente na época podia levantar discussões, como fizemos, mas poder de execução nosso era nenhum”.
Por sua vez, Paulo André destacou que a extinção do Bom Senso ainda teve relação com restrições impostas pelos clubes a jogadores que faziam parte do movimento. Muitos dos líderes já eram experientes e se aposentaram. Logo, os atletas da ativa não tiveram respaldo para seguir adiante. “Quando a gente se deparou com a aposentadoria de alguns deles, no ano seguinte, ano de 2014, ano de 2015, nós tivemos pouco apelo, pouco engajamento dos grandes jogadores que ficaram jogando, porque eles tinham visto que os que tentaram lutar tinham sido meio que barrado, criticado, tinha apanhado. Então, pô, não sei se está valendo entrar nessa luta”.
Ainda assim, o zagueiro do Furacão considera que o Bom Senso FC deixou frutos para o futebol brasileiro, como mudanças no calendário, nas pré-temporadas dos clubes e qualificação para os treinadores. “Foi experiência incrível, até hoje temos consequências positivas da discussão que a gente levantou. Muita coisa que tem acontecido, de qualificação de treinador, discussão de calendário, férias, pré-temporada, tudo aquilo se origina naquele momento, e acho que, de certa forma, vejo uma evolução no futebol brasileiro”.
Leia, a seguir, as principais declarações de Paulo André, Alex e Djalminha durante o programa Resenha ESPN sobre as críticas de Alexandre Kalil ao extinto Bom Senso FC:
PAULO ANDRÉ
Declarações de Alexandre Kalil

Cara, eu não sei se vale a pena responder. Eu não respeito esse senhor, eu acho ele…A discussão que ele levanta é extremamente superficial, ou seja, é populista, ele quer é fazer barulho, quer chamar a atenção. São frases idiotas e não vale a pena responder. É muito mais profunda a discussão do futebol brasileiro. Ninguém fala apenas de calendário. Há todo um sistema que tem que ser reformulado, a todo uma ideia, um conceito que precisa ser criado. A gente ainda…apesar dos resultados da Seleção Brasileira hoje, o futebol brasileiro rasteja, a gente vive uma crise existencial para tentar reencontrar o nosso futebol. E o Kalil, desculpa, é o prefeito de BH, coitada da população de BH, que tem que aguentar esse cara gerindo uma cidade.

Fim do Bom Senso FC

Por que acabou (o Bom Senso FC)? Por que paramos? E o Alex tratou disso muito bem, você vai se desgastando, vai sendo de certa forma ‘escanteado’, retaliado, um fica por aqui, outro fica por lá, muitos pararam, que eram a força do movimento. Evidente que tem boa condição financeira, quem tem uma carreira de sucesso, tem capacidade ou tem coragem para enfrentar um status quo, quem comanda. Quem não tem…você não pode esperar que um menino de 20 anos…eu, com 20 anos, jamais entraria nessa briga, porque eu tinha que sobreviver, ter salário para ajudar minha família e ter sucesso na minha carreira. Aos 25, 26, aí já começa a pesar. Vale a pena? Que momento eu estou vivendo? Que clube estou jogando? O que já fiz? Vou junto com os caras, mas não vou dar a cara. Mas tô dentro. Ou seja, quando a gente se deparou com a aposentadoria de alguns deles, no ano seguinte, ano de 2014, ano de 2015, nós tivemos pouco apelo, pouco engajamento dos grandes jogadores que ficaram jogando, porque eles tinham visto que os que tentaram lutar tinham sido meio que barrado, criticado, tinha apanhado. Então, pó, não sei se está valendo entrar nessa luta. E foi experiência incrível, até hoje temos consequências positivas da discussão que a gente levantou. Muita coisa que tem acontecido, de qualificação de treinador, discussão de calendário, férias, pré-temporada, tudo aquilo se origina naquele momento, e acho que, de certa forma, vejo uma evolução no futebol brasileiro.
ALEX
Declarações de Alexandre Kalil
O mais louco nessa história (declarações do Kalil) é o seguinte: ele trata o Bom Senso falando do calendário e aí ele cita de jogar menos, que era pedido nosso. A gente nunca pediu para jogar menos, muito pelo contrário. Nós sempre pedimos para que o time do Atlético Mineiro, que era o time dele no caso, tivesse tempo razoável para treinar e jogar no domingo. O time do Atlético Mineiro dele seria melhor. A gente nunca citou, por exemplo, em acabar com os Estaduais, porque a gente fez estudos enormes e tem um milhão de famílias que dependem dos Estaduais.
Fred no Atlético (Alex dá a entender que atacante foi contratado na gestão de Kalil, mas quem fechou com jogador em 2016 foi o atual presidente, Daniel Nepomuceno)
A questão de ganhar menos, que ele citou, ele teve uma chance no Atlético Mineiro. Quando o Fred tem um problema no Fluminense, o Fred é um dos altos salários do Brasil, era muito simples ele ordenar, se ele quisesse, ele, como dirigente de clube, liga para os outros 19 dirigentes da Série A e fala: ‘ninguém contrata o Fred por esse limite aqui’. Vai baixar ao natural. Salário é oferta e procura. Eu peço, André (apresentador), para você 10. Você pode pagar 5. Aí vou no Djalma, ‘oh, 10 não pago’. Ao natural isso vai ser reduzido. Isso é simples. Agora, ele, como ex-presidente do clube, não senta com outro presidente de clube para tomar café, trata o Cruzeiro como um inimigo dele, não trata como um adversário. A briga é muito superficial, é pequena, é pessoal às vezes. Por exemplo, quando ele chama de um bando de aposentado, por que era um bando de aposentado? Éramos nós representando um bando de meninos, que tinham séries dificuldades. Hoje, se você olha o Campeonato Brasileiro de Série A e Série B, tem jogadores passando pelas mesmas dificuldades lá de trás. Só que no Brasil existe uma coisa: ‘Oh, o cara ganha muito, então se ele ganhar um pouco ele pode ficar sem ganhar o resto’. E está errado. O futebol brasileiro não é Atlético Mineiro, Cruzeiro, Flamengo, Atlético-PR, o futebol brasileiro são times de Série C, Série D, times sem divisão, e a briga era nesse sentido. Agora, se ele quer enxergar só o calendário, resolve o calendário e o futebol brasileiro está resolvido. E a gente sabe que não é isso.
Mudanças paulatinas no futebol brasileiro a partir do Bom Senso FC
A nossa visão sempre foi a seguinte: nós não vamos nos aproveitar disso (tirar proveito das mudanças do futebol). Inclusive os mais novos que participavam. Provavelmente não vão participar. Ainda brincava na época. Meu filho tinha três anos. Eu falava: se meu filho chegar aos 18, atingir a maioridade e algo tiver mudado, já é uma vitória para nós, porque isso não vai mudar do dia para a noite. Nós paramos no poder de execução, porque nenhum jogador…O Kalil, por exemplo, ele é prefeito, tem uma rede de amizades. No futebol e na política, porque a política tem um peso, fomos a Brasília várias vezes, o Legislativo é pesado nessa história. A Dilma Rousseff era presidente do país, nos recebeu. O chefe da Casa Civil nos recebeu. Só que quem tem a caneta, quem pode mudar algo, são essas pessoas. A gente na época podia levantar discussões, como fizemos, mas poder de execução nosso era nenhum. E eles apostaram nisso. ‘Ah, isso aí, numa hora, vai acabar’. Por que? Eles vão encerrar a carreira, as leis vão pouco mudar, a CBF é um exemplo, existe uma cláusula de barreira absurda…então se eu quiser me fazer de louco e sair com Djalma candidato, eu não posso. E eles, dirigentes, que podem mudar algo, não fazem. E a pergunta que fica é a seguinte: não fazem por quê? A gente ainda vou numa tentativa de ajudar várias pessoas…
Visão de Kalil sobre Bom Senso FC
A gente vê o Kalil, por exemplo, prefeito de uma cidade importante do Brasil, de uma capital importante como é Belo Horizonte, foi presidente vencedor no Atlético Mineiro, tratar como se fosse algo superficial. A mim, não levo em consideração. Mas ao mesmo tempo me deixa chateado porque a gente vê que o cara não enxerga a um metro de distância tudo aquilo que está acontecendo.
DJALMINHA (ex-jogador e integrante do Resenha ESPN)
E esses jogadores que ele cita, veteranos, aposentados, todos foram excelentes profissionais, resolvidos financeiramente na vida e só estão nessa luta tentando retribuir ao futebol tudo que o futebol nos deu e deu para todos eles, melhorar para os que vêm aí por trás.

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